Se o Brasil urbano se reconhece no samba e na bossa nova, o Brasil profundo, do interior e das plantações, se reconhece no ponteio de dez cordas de aço. A Moda de Viola é o gênero mais tradicional da música caipira. Longe de ser apenas um estilo musical de entretenimento, a moda de viola é uma crônica poética, uma tradição oral que canta a vida, as dores, os causos e a filosofia do homem do campo.

O que define uma autêntica “Moda”?

No universo sertanejo contemporâneo, muita gente confunde qualquer música tocada com viola com uma “moda”. No entanto, a moda de viola clássica possui uma estrutura muito bem definida:

  • A Narrativa em Primeiro Lugar: Uma moda é, essencialmente, uma história contada em forma de versos. Ela tem começo, meio e fim. Quase sempre narra um fato heroico, uma tragédia amorosa, um causo de boiadeiro ou uma lição de moral.
  • O Dueto Caipira: Tradicionalmente, é cantada por uma dupla em duas vozes perfeitamente afinadas em intervalos de terça ou sexta, criando aquele som encorpado e nostálgico.
  • O Ponteio Intercalado: A viola caipira não serve apenas de base rítmica. Entre uma estrofe e outra, o canto para e a viola “fala” por meio do ponteio (solares rápidos e virtuosos nas cordas agudas).

O Coração do Estilo: A Viola Caipira

O instrumento que dá nome ao gênero é uma herança direta da viola de arame portuguesa, trazida pelos jesuítas e colonizadores. Adaptada ao interior do Brasil, ela se tornou a Viola Caipira (ou de dez cordas).

Diferente do violão comum, as cordas da viola são dispostas em cinco pares. O grande segredo da sua sonoridade única está nas afinações, batizadas com nomes poéticos que remetem à natureza e ao misticismo, como Cebolão (diz a lenda que o som chora tanto que faz chorar igual cebola), Rio Abaixo e Boiadeira.

Os Grandes Clássicos e a Era de Ouro

A história da moda de viola confunde-se com a própria história do rádio e do disco no Brasil. O pesquisador Cornélio Pires, em 1929, bancou do próprio bolso as primeiras gravações de música caipira autêntica, abrindo as portas para gerações de gênios.

Algumas composições tornaram-se verdadeiros hinos nacionais do interior, atravessando décadas:

  • “O Menino da Porteira” (Teddy Vieira / Luisinho): A trágica história do menino que abria a porteira para o boiadeiro e acaba morrendo atropelado por um boi sem coração.
  • “Chico Mineiro” (Tonico / Tinoco): Uma narrativa emocionante sobre a amizade de dois boiadeiros na estrada que termina com a descoberta tardia de um laço de sangue.
  • “Rei do Gado” (Teddy Vieira): Uma crítica social e exaltação do poder dos grandes fazendeiros e criadores de gado do Brasil antigo.

Entre as duplas, Tonico & Tinoco (os “Corações do Brasil”) e, mais tarde, o brilhantismo técnico de Tião Carreiro & Pardinho moldaram o gênero. Tião Carreiro, inclusive, criou uma variação mais rápida e percussiva da moda de viola: o Pagode de Viola, que revolucionou o modo de pontear o instrumento.

O Legado e a Resistência

Apesar da enxurrada do sertanejo pop e universitário que domina as rádios hoje em dia, a moda de viola não morreu. Ela se recolheu para um espaço de respeito e reverência. Grandes nomes da música popular brasileira, como Almir Sater, Renato Teixeira e o mestre Inezita Barroso (durante sua vida), lutaram para manter o estilo vivo na mídia.

Hoje, uma nova safra de violeiros e violeiras urbanos e rurais redescobre o instrumento, provando que enquanto houver uma estrada de terra, um Ipê florido e uma história para contar, o ponteio da viola continuará ecoando no peito do brasileiro.